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Discussões rasas e falsas polêmicas marcam reta final para eleição presidencial

Candidatos gastaram quarenta dias discutindo questões secundárias, algumas até mesmo bizarras, passando ao largo dos problemas cruciais para o país

Discussões rasas e falsas polêmicas marcam reta final para eleição presidencial
RETA FINAL - Lula: debate sobre a manutenção de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil (Ricardo Stuckert/.)

Em situações normais, as campanhas eleitorais servem para o debate de propostas, a comparação de projetos e o esclarecimento do eleitor, o senhor soberano das urnas. No Brasil, não faltam assuntos de interesse das 158 765 458 pessoas aptas a votar. A taxa de homicídios é uma das maiores do mundo e anda de mãos dadas com o avanço do crime organizado.

Nossos estudantes continuam a ter um desempenho bem abaixo do obtido por alunos de países desenvolvidos em exames internacionais que medem o nível de aprendizagem. O quadro fiscal é tão grave que pode resultar, em breve, na paralisação da máquina pública. A sucessão de casos de corrupção parece não ter fim. Há concentração de médicos em determinadas regiões e carência de profissionais qualificados em outras localidades. As mazelas são conhecidas, mas não mereceram a devida e necessária atenção dos candidatos ao Palácio do Planalto. Poucas vezes na história recente uma campanha foi tão pobre.

Rejeitados pela metade do eleitorado, os favoritos se dedicaram principalmente a desgastar um ao outro. Como em 2022, disputam o título de “o menos pior” aos olhos dos votantes. Às vésperas do primeiro turno, ninguém sabe como Lula pretende, finalmente, mostrar serviço na área da segurança pública, até porque ele preferiu dar ênfase em sua propaganda ao pedido de 134 milhões de reais que seu rival Flávio Bolsonaro fez ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse.

Ninguém tem noção também dos planos do Zero Um para a saúde e a educação, porque o senador aposta quase todas as fichas no antipetismo, insuflado por escândalos como as suspeitas de tráfico de influência que pesam sobre o filho mais velho do presidente. Durante a campanha, sobraram ataques, golpes baixos e fake news suprapartidárias — e faltaram propostas inovadoras. A terceira via não escapou dessa armadilha.

Não bastasse o deserto de ideias, a disputa ainda foi atropelada por investigações realizadas pela Polícia Federal, sobretudo dos escândalos do Master e do INSS, e pela crise de reputação do Supremo Tribunal Federal. Os presidenciáveis não apenas não se esforçaram para mudar o foco do debate, aproximando-o daquilo que realmente interessa à população, como ainda se embolaram em questões absolutamente bizarras. Na última semana antes do primeiro turno, por exemplo, os líderes das pesquisas, que aparecem tecnicamente empatados, dedicaram-se a um debate inútil sobre a manutenção ou não de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.

Existe ainda uma chance de melhora na qualidade do debate, caso ocorra o segundo turno. De qualquer forma, o futuro presidente não terá como fugir à responsabilidade de lidar com problemas incontornáveis. Com ajuda de especialistas nas mais diferentes áreas, VEJA elencou os principais desafios do país para os próximos anos. Confira a seguir.
A VIOLÊNCIA COTIDIANA

As pesquisas mostram que a área da segurança pública está no topo das preocupações da população. Não é à toa. Um estudo da Organização das Nações Unidas, divulgado em dezembro de 2023, colocou o Brasil na 14ª posição entre os países com maior taxa de homicídio no mundo — 21,26 registros por 100 000 habitantes, cinco vezes mais do que a dos Estados Unidos. Já a ONG estrangeira Armed Conflict Location & Event Data Project reservou ao Brasil, em 2025, a 7ª colocação entre os países mais perigosos do mundo, devido aos altos índices de violência associados ao crime organizado, que tem como principais expoentes em território nacional o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.

O PCC e o CV até foram citados na campanha presidencial deste ano. Ou, melhor, usados como munição na disputa eleitoral, com Flávio Bolsonaro defendendo que sejam classificados como organizações terroristas, e Lula se manifestando contrariamente à ideia.

O Brasil ocupa a 7ª posição no ranking dos países mais perigosos do mundo

Os dois candidatos lançaram mão do caso para marcar diferenças entre eles, mas sem esclarecer o que realmente interessa: como pretendem impedir o avanço desses grupos. Sobraram propostas genéricas na campanha, como investir em mais inteligência ou endurecer a lei. Segundo dados do Ministério da Justiça, há mais de oitenta facções criminosas no país. Algumas delas estão espalhadas por mais de vinte unidades da federação.

“Temos muitas soluções histriônicas e poucas propostas baseadas na ciência e em evidências”, diz Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “O Lula sempre deixou muito a desejar na área da segurança pública. É um discurso vazio. Também acho incrível as pessoas acreditarem que o Flávio Bolsonaro realizará algo diferente do pai dele, que nada fez. É um deserto de ideias”, acrescenta. Para Alcadipani, os principais problemas da área são a falta de articulação da União com os estados, a violência contra a mulher e os roubos de celulares.

A PRAGA DA CORRUPÇÃO

Em fevereiro deste ano, a Transparência Internacional divulgou o Índice de Percepção da Corrupção, deixando claro que o Brasil está longe de superar essa chaga histórica. Numa escala de zero a 100 (ou de menor para maior integridade), o país marcou apenas 35 pontos, repetiu a segunda pior nota na série histórica iniciada em 2012 e permaneceu na 107ª posição entre 182 nações analisadas. O resultado não pode ser classificado como surpreendente. Muito pelo contrário.

Em cooperação com órgãos de controle, a Polícia Federal desbaratou, do ano passado para cá, a maior fraude bancária da história brasileira e a roubalheira bilionária contra aposentados e pensionistas. “O Brasil chocou o mundo com casos de corrupção em escala inédita, como INSS e Master”, afirma o diretor-executivo da Transparência Internacional, Bruno Brandão. Casos que, honrando uma tradição nacional, ainda não renderam punições à altura aos cabeças e aos principais comparsas das quadrilhas.

As novelas do Master e do INSS foram exploradas na campanha. Na trincheira governista, Lula alegou que sua gestão estancou a sangria. Nas hostes oposicionistas, seus rivais culparam o presidente pelos escândalos. Todos os lados entoaram discursos em defesa do aprofundamento das apurações, acompanhados do protocolar “doe a quem doer”.

Uma balela. Enquanto tentavam convencer o eleitorado de seus nobres propósitos, os adversários agiram para blindar seus aliados suspeitos de participar dos esquemas. “Apesar de escândalos como mensalão, petrolão e Banco Master, não temos visto propostas de reformas estruturais para combater a corrupção”, afirma Guilherme France, gerente de pesquisas da Transparência Internacional, cobrando uma política pública de longo prazo e que envolva os Três Poderes.

O Brasil tem chocado o mundo com a escala inédita de escândalos

Não foi, obviamente, como os candidatos trataram do tema. “Eu vejo nesta campanha uma pobreza muito grande de propostas, uma gritaria, um bate-boca generalizado. Os escândalos de corrupção se multiplicam, e o brasileiro está meio anestesiado, o que é desesperador”, afirma o procurador de Justiça do MP de São Paulo Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção.

A situação é mesmo periclitante, já que, como observa Guilherme France, o Brasil — além de não resolver problemas pretéritos — adicionou novas modalidades ao cardápio. Uma delas é o orçamento secreto, cujos desvios estão sob investigação do Supremo. Outra são as ofensivas para reduzir a fiscalização e a punição de dirigentes partidários e políticos que cometem ilegalidades no manejo de verbas públicas. A cada ofensiva para fechar o ralo, há outra para escancará-lo. O problema é conhecido, mas só rendeu frases de efeito dos presidenciáveis.

A BOMBA DA DÍVIDA

Agravada na presidência de Dilma Rousseff, a crise fiscal se arrasta no Brasil há mais de uma década e resistiu a três trocas de governo. Em 2026, o rombo no orçamento público federal deve chegar a 80,9 bilhões de reais, conforme o Ministério do Planejamento, quase o dobro de 2024 (43 bilhões de reais). Ano após ano, o governo gasta mais do que arrecada e toma empréstimos caríssimos para tapar o buraco, que, somando os gastos de União, estados, municípios e INSS, superou 11 trilhões de reais e chegou a 82,9% do PIB em agosto, o pior índice desde o fim da pandemia. A solução passa por um inevitável corte de gastos, já que a carga tributária alcançou níveis sufocantes.

Embora Lula tenha dito recentemente que “a mim não preocupa a dívida pública”, o próximo presidente terá imensos desafios nessa seara. Um deles será enfrentar o grande vilão do Orçamento: as despesas obrigatórias. Custos como aposentadorias, programas sociais e emendas parlamentares comprometem até 95% da verba federal, deixando pouco espaço para investimentos. “O problema começa pela composição das despesas. É urgente incluir saúde e educação na regra do teto de gastos e reduzir o poder do Congresso sobre os gastos discricionários, que têm o maior potencial de fomentar a economia”, avalia Felipe Salto, economista-chefe da Warren e ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado.

No cerne do problema da dívida pública há um desequilíbrio entre as demandas de diversos grupos sociais e o crescimento econômico do país. “O Estado tenta amenizar os conflitos atendendo a todas as classes, gastando na mesma proporção que países muito mais ricos. Para o eleitor, o endividamento soa como uma conta abstrata, mas a crise tem impactos reais na geração de empregos e no custo dos empréstimos”, explica Marcos Mendes, professor do Insper e ex-assessor especial do Ministério da Fazenda.

A crise tem impactos reais na geração de empregos e no custo de vida

Os principais candidatos de oposição, todos à direita de Lula, prometeram cortes, mas de forma genérica para não se comprometerem demais com o eleitor. Flávio Bolsonaro chegou a falar em “tesouraço”. E ficou nisso. Já Lula insiste no arcabouço fiscal aprovado em 2023 como solução para a crise fiscal, algo que não encontra respaldo no setor privado e gera mais pressão sobre o Orçamento. Essa bomba explodirá no colo do presidente eleito. Como o tema é desgastante, nenhum dos postulantes ao cargo aproveitou a campanha para tentar desarmá-la.

REFORMAS IMPOPULARES

Em outros tempos, o debate político permitiu que, mesmo aos trancos e barrancos, o país avançasse em reformas importantes, como a trabalhista, a da Previdência e a tributária. Nessas ocasiões, a necessidade de modernizar o país prevaleceu. Na atual campanha, no entanto, não houve muito espaço para esse tipo de debate.

A reforma administrativa, que vaga pela Praça dos Três Poderes há anos, só conseguiu um espaço mínimo nos discursos dos candidatos a presidente. Essa pauta reúne medidas com amplo apoio popular, como acabar com os supersalários e estabelecer metas e critérios meritocráticos para a remuneração do funcionalismo. O problema é que ela também contém ações que enfrentam forte resistência política, como revisar a estabilidade dos servidores públicos e abrir margem para demissões por desempenho insatisfatório. A Câmara chegou a formar um grupo de trabalho sobre a reforma administrativa que apresentou, no final de 2025, três propostas sobre o tema. Nenhuma delas avançou.

Mudanças necessárias para modernizar o país enfrentam fortes resistências

Gargalos continuam à espera de moralização. Um deles é a proporção descabida dos chamados “cargos de confiança”, que são preenchidos, sem concurso, por indicações do Executivo — com frequência, para consolidar alianças políticas. Dados do IBGE apontam que mais de 1 milhão de vagas no funcionalismo federal, estadual e municipal são nomeadas diretamente por gestores, o que prejudica tanto a confiança da população quanto a continuidade das políticas públicas.

“Em países como Alemanha, França e Reino Unido, apenas os ministros são apontados pelo governante. Isso garante que a máquina pública seja composta por servidores de carreira e impede que uma eventual troca de governo mude todo o planejamento dos órgãos de Estado”, diz o economista Paulo Feldmann, professor da FIA Business School. Lula disse na campanha não ver necessidade de aprovar uma reforma administrativa. O petista falou em combater os supersalários, mas ressaltou que é preciso manter a estabilidade dos servidores e aprimorar a máquina pública. Já nas campanhas dos candidatos de oposição, predominou um apoio protocolar à reforma, tendo como carros-chefes a redução de ministérios e a adoção de critérios meritocráticos para contratação e remuneração.

O CAOS NA SAÚDE

Em segundo lugar na lista das principais preocupações do brasileiro, conforme pesquisa BTG/Nexus, a área da saúde não deu vida fácil a Lula em seu terceiro mandato, tanto que ele mudou o responsável pela chefia do ministério. Um dos desafios do governo, que perdura desde a primeira vez que o petista assumiu o poder, em 2003, é reduzir a fila de espera por consultas, exames e cirurgias especializadas no Sistema Único de Saúde (SUS).

O presidente lançou e repaginou um programa específico sobre o tema, mas até agora não foi capaz de acelerar o atendimento na velocidade exigida pelos pacientes. Em julho, o Tribunal de Contas da União divulgou uma auditoria sobre o chamado Agora Tem Especialistas na qual reconhece avanços, mas destaca que pelo menos metade dos usuários espera mais do que o prazo estipulado em lei, de sessenta dias, para ter acesso a cerca de 20% dos procedimentos oncológicos. No festival de platitudes da campanha, nenhum candidato se dignou a tratar desse assunto com a seriedade devida.

O orçamento da Saúde é gigantesco, mas não é administrado com eficiência

Eleito para presidir a Associação Médica Brasileira (AMB) no triênio 2027/2029, José Eduardo Lutaif Dolci lista como outros problemas do setor a má gestão dos recursos, a formação ruim dos médicos, agravada pela expansão dos cursos de medicina, e a concentração de profissionais na Região Sudeste, que deixa descobertos estados como o Maranhão e o Tocantins. Hoje, o orçamento federal da Saúde supera a casa dos 200 bilhões de reais e é um dos maiores da Esplanada, mas nem sempre é executado com eficiência e a partir de critérios técnicos.

São conhecidos os casos de destinação de grandes quantias para localidades menos necessitadas em razão de acordos políticos. São conhecidos também os casos de desperdício e de desvios de verbas. Tamanha bolada desperta uma cobiça compatível — e, com ela, a necessidade de aperfeiçoamento dos mecanismos de controle e gestão. “O que os candidatos colocam nos programas de governo é extremamente genérico”, critica Dolci.

A LADAINHA DA EDUCAÇÃO

Uma conhecida tradição de políticos em campanha é dizer que a educação fará o Brasil realizar a profecia e se transformar no país do futuro. Passada a eleição, o tema fica em segundo plano. Não deveria. Em junho, o IBGE mostrou que o país ainda tem 8,4 milhões de cidadãos com 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever, o que corresponde a uma taxa de analfabetismo de 4,9%. Mais da metade deles está na Região Nordeste: 4,8 milhões de pessoas.

Em setembro foi a vez de a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgar o resultado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e deixar claro que o Brasil tem um longo caminho a percorrer. O levantamento mostrou que 43,8% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo de proficiência, mais que o dobro da média da OCDE, de 19,7%. Na avaliação de matemática, o Brasil ficou em 71º entre os 89 países pesquisados nessa matéria.

O Legislativo impulsiona conflitos rotineiros com o Executivo

Esses números são apenas uma amostra do tamanho dos obstáculos a ser superados na área. Diretora de relações governamentais da organização Todos pela Educação, Talita Nascimento diz que é preciso melhorar a formação inicial dos professores, intensificar o “reforço escolar” para enfrentar as enormes defasagens que se aprofundaram com a pandemia de covid-19 e avançar na expansão da educação em tempo integral com qualidade e equidade.

Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, apenas 20,2% dos professores alcançaram o nível considerado adequado no Enade Docente de 2025. Talita ressalta que o país avançou na educação integral nos últimos anos, mas ainda precisa ampliar significativamente a oferta e reduzir as enormes desigualdades existentes entre as regiões. “Não basta simplesmente aumentar o número de horas que o estudante permanece na escola. Tem de garantir financiamento, infraestrutura, equidade na expansão e, sobretudo, qualidade pedagógica.”

CONFLITO INSTITUCIONAL

Um dos desafios mais urgentes do presidente eleito será lidar com o desarranjo crescente entre as instituições e evitar que isso vire uma crise de governabilidade. Pesquisa Datafolha apontou que 48% da população não confia no Supremo Tribunal Federal, uma taxa recorde, que colocou o STF no topo do ranking do descrédito, à frente do Congresso Nacional (45%), dos partidos políticos (45%) e do governo federal (42%). Todos os índices pioraram desde 2022. As causas para o desarranjo são variadas. Uma delas é o poderio crescente do Legislativo, que resultou em sequestro de parte considerável do Orçamento, com 61 bilhões de reais só neste ano para emendas parlamentares. O empoderamento do Congresso impulsiona conflitos cada vez mais rotineiros com o Executivo, não raro travando agendas estratégicas para o país.

Também contribuiu para a degradação institucional o protagonismo progressivo do Supremo, que está cada vez mais presente na arena política para mudar ou barrar decisões tomadas pelo Congresso, provocando descontentamento e desejo de desforra nos parlamentares. Nada, no entanto, se compara à deterioração recente do ambiente no tribunal, que ofereceu ao país cenas lamentáveis de ministros se digladiando em público por conta de vínculos suspeitos de magistrados com o Banco Master. A relação harmônica entre os poderes da República é peça-chave para fazer avançar qualquer projeto decente de país, mas essa preocupação esteve longe da campanha eleitoral, na qual a deterioração institucional serviu apenas de escada para proselitismos e simplificações variadas, quase sempre demagógicas, sobre soluções para o desafio.

A crise tem impactos reais na geração de empregos e no custo de vida

Alguns dos principais candidatos propuseram o impeachment de ministros do STF como forma de passar a limpo o tribunal, o que, na visão de especialistas, pode agravar a fragilidade institucional. “Essa não é a única forma de resolver a crise, que demanda uma reforma mais ampla do Judiciário e da Suprema Corte”, avalia o cientista político e professor Lean­dro Consentino, membro do Observatório da Política do Insper. Sobre a repactuação da relação do governo com o Congresso, nada substancial foi anunciado na campanha. Nenhum presidenciável disse claramente que pretende reduzir o montante extraordinário destinado às emendas ou exigir que elas sejam pagas com transparência e em consonância com as prioridades da nação.

O BRASIL E O MUNDO

A discussão sobre o cenário internacional foi tomada pela rinha ideológica

A política externa do Brasil entrou na pauta com especial relevância em razão da atribulada relação com os Estados Unidos, que anunciaram sucessivas sobretaxas às exportações brasileiras, aplicaram sanções a autoridades nacionais e, segundo petistas, podem tentar interferir no processo eleitoral para impedir a reeleição de Lula. Na campanha, a discussão sobre o cenário internacional foi tomada pela rinha ideológica que contamina o debate político e virou quase sempre uma guerra de torcidas entre quem está contra ou a favor de Donald Trump,  ou entre quem defende mais ou menos distância da China. Lula usou as iniciativas do mandatário americano como pretexto para empunhar a bandeira da defesa da soberania nacional.

Já Flávio Bolsonaro se aproveitou de uma suposta proximidade com o presidente dos EUA para alegar que terá mais facilidade para estabelecer parcerias estratégicas com ele, inclusive no combate às organizações criminosas. Eleito presidente, o senador teria condições favoráveis para negociar, por exemplo, a suspensão dos tarifaços, que foram impostos com o apoio de seu irmão Eduardo Bolsonaro, deputado cassado, cotado para comandar o Itamaraty em eventual governo do Zero Um.

Em meio à troca de declarações de efeito, nenhum dos dois candidatos detalhou ao eleitor qual papel eles querem que o Brasil desempenhe no mundo. “O Brasil tem hoje uma desorganização econômica, política e industrial como poucas vezes se viu. Para ter uma política externa eficiente, é preciso pôr a casa em ordem. O país precisa pensar em segurança econômica e defender os seus interesses”, diz o diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington. Sem respostas concretas para esses e os outros problemas, os candidatos deixam os eleitores e o país à mercê de futuros improvisos e imprevisíveis aventuras.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015

 

 

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