“Não entendo...', divagou Lula ao comentar a derrota no primeiro turno. “Será que o povo está certo e estamos errados?'
O inesperado fez uma surpresa para a dupla mais experiente da política nacional — Lula, que vai completar uma dúzia de anos no governo federal, e Geraldo Alckmin, que governou São Paulo, o estado mais rico, por dezesseis anos.
“Não entendo…”, divagou Lula na noite deste domingo (4/10) ao comentar a derrota no primeiro turno. “Será que o povo está certo e estamos errados?”
As urnas foram eloquentes. Flávio Bolsonaro passou ao segundo turno com 56,1 milhões de votos (47,03% do total), enquanto Lula obteve 53,8 milhões (45,16%).
O candidato da oposição, também, admitiu surpresa com o resultado. Ele recebeu 5 milhões de votos a mais que seu pai, então presidente, conseguiu no primeiro turno da eleição de 2022.
A distância entre Flávio Bolsonaro e Lula ficou em 2,3 milhões de votos. A diferença (1,8%) é igual à da vitória de Lula no segundo turno de 2022.
Pode-se dizer que, nas urnas, o filho-candidato vingou o pai Bolsonaro, derrotado no projeto de reeleição, depois inelegível e condenado à prisão até o ano de 2052 por tentativa de golpe de estado.
Houve uma guinada no rumo das eleições. A mudança não foi captada nas pesquisas da reta final, mas elas desenharam o meio-ambiente propício: o desalento predominante, com realce para a apatia que, aparentemente, deriva de uma longa transição geracional, onde a permanência do antigo passou a limitar ou simplesmente impedir a emergência do novo aos olhos dos 158 milhões de eleitores.
Está claro que o súbito desvio do eleitorado não foi motivado por um desejo de mudança emulado pelas ideias do candidato e de partidos de oposição. Não seria possível, porque oposição e governo fizeram um pouco de tudo na campanha, menos apresentar e debater propostas consistentes e coerentes para o futuro do país.
É possível, no entanto, constatar uma coincidência entre a abrupta alteração na direção do voto e a ofensiva judicial com intervenções sucessivas e contraditórias no processo eleitoral — reflexo da crise do Supremo Tribunal Federal que transformou Brasília numa usina de insegurança institucional.
O eleitorado respondeu nas urnas e ampliou o cerco ao STF no Senado. Deu à oposição um candidato presidencial em vantagem, com perspectiva de poder para indicação de quatro juízes no Supremo, apoiado por uma bancada no Senado (PL e aliados) com poder de fogo suficiente (44 votos) para decidir a maioria das matérias legislativas em que é exigida maioria absoluta no plenário (41 votos).
Para pautar e aprovar impeachment de juiz do Supremo, essa bancada que hoje é de oposição precisaria eleger o presidente do Senado em fevereiro e, em seguida, assegurar votos extras com outros partidos de centro até alcançar o mínimo exigido de dois terços do plenário (54 votos).
É difícil, mas factível no novo formato que os eleitores deram ao Senado.
BATANEWS/VEJA

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